quarta-feira, 26 de setembro de 2007

NOITE INSONE E AMOR ETERNO


A lufada de vento percorre a relva da charneca por onde passeiam Catherine e Heathcliff, antes que ela conheça e case com Edgar. Depois de mortos, eles continuam a encontrar-se no Morro. O vento forte dá nome ao livro magistral, tantas vezes transformado em filme.
Para quem nunca ouviu falar, eis um dos resumos da imortal obra de Emily Brontë:

O patriarca da família Earnshaw resolve fazer uma viagem e lá resolve adotar um pequeno intruso órfão cigano ao qual denominam Heathcliff. Toda a afeição que o pai logo demonstra pelo menino enciumou seu filho legitimo Hindley, que acha que esta perdendo a afeição do pai para o menino. Sua irmã, Catherine, se apaixona por Heathcliff. Quando o Sr. e Sra. Earnshaw morrem, Hindley sujeita Heathcliff a várias humilhações. Este passa a ficar bruto e melancólico. Apesar do amor entre ele e Catherine ela decide casar com Edgar Linton. Heathcliff sai de Wuthering Heights, quando volta surge rico, chamando a atenção de Catherine e despertando ciúmes em seu marido. Catherine tem uma filha de Edgar e morre logo em seguida. Heathcliff resolve se vingar de Edgar e de Hindley. Primeiro se casa com Isabella, irmã de Edgar. Logo após, Isabella lamenta-se de ter se casado com Heathcliff, e tem um filho chamado Linton. Hindley cai no vício do jogo e da bebida e perde todos os seus bens para ele. O filho de Hindley (Hareton) conseqüentemente, fica sem herança. Com sua morte Heathcliff casa Linton e Cathy (filha de Catherine e Edgar). Os planos dele são frustrados quando Linton morre e Cathy casa-se com Hareton.

Os cabelos voam na face doente a noite toda como o vento forte que sopra e uiva sem parar sobre a relva do Morro onde Catherine e Heathcliff se encontram. Tento imaginar os vultos de mãos dadas entre a relva do Morro enquanto as horas se arrastam no silêncio da noite. Nem a morte conseguiu separar aquelas almas gêmeas. Se eu fosse doida por completo, começaria a arrancar os fios de cabelo que tanto me incomodam. Luto por manter a lucidez e divago sobre a história de O Morro dos Ventos Uivantes. Catherine amava tanto Heathcliff , quando o vê novamente, não desconfia do verdadeiro motivo por que voltou, para vingar-se de tudo, inclusive dela.

Para que existem as tesouras? Infelizmente elas não exterminam os mosquitos, implacáveis querem picar o lado doente de meu rosto, mesmo com o ventilador no máximo. É enlouquece+dor.

Catherine e Heathcliff continuam a correr de mãos dadas até a gruta somente por eles conhecida. Existe um amor assim, capaz de ultrapassar até a morte?

Conceição Pazzola

Olinda, 26/9/2007



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sábado, 11 de agosto de 2007

PAIS SÃO ESPELHOS PARA OS FILHOS


Pai... - Não me dês tudo o que te peço
Às vezes meus pedidos querem apenas ser um teste,
para ver o quanto posso pedir.

- Não grites comigo
Eu te respeito menos, quando o fazes
E me ensinas a gritar também, e eu não quero fazer isso.

- Não me dês ordens a todo momento
Se em vez de mandar, algumas vezes externasses teus desejos sob forma de pedidos, eu o faria mais rapidamente e com mais gosto.

- Cumpre as promessas que fazes, boas ou más

Se me prometes um prêmio, deves concedê-lo;
assim como um castigo.

- Não me compares a ninguém, especialmente com meus irmãos
Se me colocas acima deles, alguém vai sofrer
Se me colocas abaixo, eu é que sofro.

- Não mudes de opinião a cada momento sobre o que devo fazer
. Pensa antes, mantendo a decisão.
- Deixa que eu faça, acertando ou errando

Se fazes tudo por mim, serei um eterno dependente.

- Nunca pregues uma mentira,
nem me peças que eu o faça
Isso criará em mim um mal-estar e me fará perder a confiança em tudo o que afirmas.

- Quando te enganas em alguma coisa, admite-o francamente
Isso não te diminuirá a meus olhos,
pelo contrário,
te fará crescer e eu aprenderei a assumir minhas faltas.

- Quando te dás conta de um problema meu não digas que é bobagem que o tempo corrige ou que não tens tempo
Eu preciso ser compreendido e ajudado.

- Trata-me com a mesma amizade e a mesma cordialidade com que tratas teus amigos
Pelo fato de pertencermos à mesma família,
não significa que não possamos ser amigos também.

- Nunca me ordenes fazer uma coisa
Quando tu mesmo não a fazes
Eu aprendi a fazer sempre
e apenas aquilo que tu fazes
e não aquilo que tu dizes
.

Eu te amo muito, pai!

(autor desconhecido)


Conceição Pazzola

11/8/2007


terça-feira, 7 de agosto de 2007

A DANÇA DA BORBOLETA



A escola e o bairro não passavam daquilo. Paupérrimos, quase miseráveis. Para realizar aquele projeto e montar o teatro infantil desdobrou-se sozinha, queria dar conta do recado. Sua marca de mulher obstinada, quando encasquetava uma coisa na cabeça, sai de baixo. Perdeu noites e muitas tardes, trabalhou durante o ano inteiro na tentativa de disciplinar, ensaiar, confeccionar cenário e roupas. O mais difícil já conseguira, as meninas trouxeram o consentimento assinado pelos pais. Na reunião de pais e mestres encenaria o Auto de Natal.

Chegou o grande dia. Escapuliu da vigilância cerrada de colegas e diretora, mal se encontrou sozinha abriu a cortina. Tremeu da cabeça aos pés: a cidade inteira parecia ter vindo à escola, não havia nenhum lugar vazio.

Impaciente, a platéia começou a bater os pés, a reclamar pela demora. Com muito esforço conseguiu controlar-se e foi buscar as “artistas” na sala contígua. Estavam em pé de guerra de tão excitadas. Parecia um pandemônio, deu um trabalhão acalmá-las. Aquela criança tímida e arredia que ameaçava fugir na hora agá precisava de todo o seu desvelo... Teve uma idéia. Tirou o batom da bolsa, puxou-a para longe das outras, mostrou-lhe o espelho antes de pintar seus lábios. A menina sorriu de tanta felicidade. Ainda não havia pregado o laçarote de papel crepom vermelho na cabeça, fez tudo em ritmo acelerado, em seguida a empurrou para onde as demais já estavam perfiladas atrás da cortina. Não havia tempo para mais nada. Deu o sinal, a cortina subiu quando a música começou a tocar. Sem perder nenhum movimento, não conseguia parar de cantar, a voz trêmula pelo nervosismo: Borboleta pequenina, venha cá nesse portal, venha ver quanta menina, hoje é noite de Natal...

Pronto, conseguira.

Os murmúrios de aprovação cada vez maiores confirmavam as batidas aceleradas dentro do peito: um sucesso!

Súbito, o sangue gelou em suas veias. Impossível não ouvir os cochichos, os risos vindos da platéia.

Cresceram de intensidade. Um frio percorreu-lhe a espinha, gesticulou frenética atrás da cortina sem que fosse obedecida.

Aquilo não podia estar acontecendo.

Desolação? Sem ligar para as gargalhadas insuportáveis, invadiu o palco, puxou-a do meio das outras, um grande ponto de interrogação parecia pular de suas pupilas assustadas: Por que?

Longe de olhares e risos obrigou-a a virar-se, a boca cheia de alfinetes começou a pregar com dedos nervosos a saia de papel crepom vermelho. Sem que percebesse, um volteio brusco e pronto. Abrira-se, pusera à mostra a calcinha de cetim e o pompom branco para deleite dos que assistiam.

Caiu no choro e nada a fez voltar para terminar a dança da borboleta.


Conceição Pazzola

Agosto/2007.

A SAUDADE MESQUINHA




Na varanda da saudade

me debruço e choro

a tua ausência

nessa tarde

na varanda da saudade

deixo para trás

o amor que não volta

nunca mais

e passo a sorrir

como louca sozinha

por chorar e sentir

a saudade mesquinha

de ti, de alguém

que criei e sonhei

a quem e ninguém

pertencerei.

Conceição Pazzola

16/2/2007.

sábado, 4 de agosto de 2007

PERDÃO


Na areia meus pés foram marcar

o novo amanhecer e o poente

esperei a noite se aproximar

vi a luz desvanecer suavemente

Segui sem pressa pela escuridão

comigo foi a dor de mim e de você

verti doces lágrimas de perdão

lutei com o tempo de esquecer

O vento bafejou nossa partitura

trouxe um amor e toda emoção

incontida meiguice e ternura

uma voz a cantar nossa canção

De novo pela areia tento achar

sinais e marcas de tua passagem

tantas vezes sonhei te ver chegar

ao raiar de novo dia, só miragem

ainda te dedico meu coração

vejo no céu novo sol despontar

acaricio nas minhas tua mão

te espero meu nome murmurar.

Conceição Pazzola

1/8/2007

sábado, 28 de julho de 2007

A SAGA DE (UMA) MORENA PORRALÔCA


Além desse nome invulgar ela não nasceu com a face virada pra lua. Fruto de um rolo entre Otelo, o domador de um leão chamado Garibaldo e Desdêmona, a mulher barbada sempre recolhida à sua tenda desde os primeiros sonhos com barbeadores elétricos e rios de sangue que escorrem nas ruas e cidades. Antes que Morena trocasse todos os dentes de leite a família Pôrraloca desintegrou-se. Cansado de levar chicotadas e repetidos foras de Desdêmona por quem nutria secreta paixão, o antes submisso leão Garibaldo enfureceu-se a ponto de engolir Otelo de uma vez sem mastigá-lo. Desse restaram o chicote e o paletó de domador bordado a ouro por Desdêmona, para contar sua história.

Desdêmona nada pôde fazer. Depois do fato consumado limitou-se a tentar recolher o paletó, no que foi impedida pelo leão. Quando a noite chegou, achou-a dedicada à espinhosa tarefa de manejar o barbeador do finado recém engolido enquanto maquinava planos para chutar o pau da barraca, melhor dizendo, do circo. Antes que o sol raiasse por completo havia desistido de tão espinhosa missão, rabiscou um bilhete de despedida, despejou sobre ele o resto de um perfume preferido por Otelo, entregou a uma das patas dianteiras de Garibaldo novamente submisso. Desde que estancara o zumbido do barbeador ligado, o leão esperava pelo resultado, ao vê-la com a metade do rosto escanhoado sacudiu a juba de contentamento, mas, logo voltou a ficar macambúzio. O bilhete não trazia o seu nome.

O caminho estava livre. Por que, Desdêmona? Perguntou-se. Porém, na vida real os bichos não falam. Teve de engolir em seco e voltar ao recanto mais escuro da jaula. Com um gesto desdenhoso ela virou-lhe as costas e sumiu sem mostrar nenhum sinal de arrependimento.

Quando Morena acordou quase ao meio-dia que ninguém é de ferro depois de uma noite tão cheia de novidades, a perda de seu pai, o barulho no quarto de sua mãe a noite toda...

Mesmo com sua barba pela metade Desdêmona embarcou no ônibus com o bilhete só de ida adquirido no guichê da empresa Progresso.

Morena sentiu o ambiente carregado ao ver Garibaldo palitando os dentes atrás das grades de sua jaula com a cara mais inocente desse mundo. Ainda ruminava Otelo, e mal a avistou, esticou a pata com displicência leonina para lhe entregar o bilhete de sua mãe, agora fugitiva. Continha somente as cinco letras que choram num momento de dor: Adeus!

Enfim, reconheceu: estava só naquele circo falido, rodeada de negros pêlos da metade da barba de Desdêmona por todos os lados, até em cima da velha lona que cobria o circo. Compreendeu que não lhe restava outra coisa a fazer senão juntar as tralhas para ganhar o mundo. Como ninguém é perfeito, enquanto trocava de roupa ligou a radiola de ficha, ouviu e cantarolou com Miltinho a música preferida por seu pai Otelo: cara de palhaço, roupa de palhaço...

Por falar nisso, Morena vestiu também o nariz de bola vermelha, procurou e achou a chave que abria a jaula do leão. Antes de soltá-lo, a muito custo fez o leão prometer que não olharia para trás e o mandou catar coquinhos na floresta.

O leão obedeceu embora um pouco relutante por que nunca ouvira falar em nenhuma floresta, pegou sua reta sem olhar para trás.

Que fim levou Garibaldo? Ninguém sabe, ninguém viu...

Atraídos pelo fogaréu no meio do mato, os bombeiros chegaram quando só havia cinzas no lugar onde o circo fora armado. Ali, acolá, alguns poucos pêlos da espessa barba de Desdêmona para contar a história.

Sentada à beira do caminho Morena via os carros passarem por ela. Nenhum se mostrava disposto a dar-lhe carona, achou a solução quando o chefe dos bombeiros subiu na boléia do carrão de um vermelho berrante. Com sirena e tudo lá se foi Morena Porralôca vestida de palhaço sob a proteção do Corpo de Bombeiros até o cais do porto.

Apesar de pouco iluminado, ela enxergou o Menino Jesus de Chico Buarque perambulando no cais, sem lenço e sem documento atrás de uma banca de revista onde ninguém lê tanta notícia. Como já era tarde estavam todas fechadas, de modo que a sorte dessa vez sorriu para Morena. O Menino Jesus conhecia de cabo a rabo o local onde nascera. Conseguiu um tonel de querosene vazio no porão do primeiro navio pronto a zarpar, eles jogaram par ou ímpar, ela ganhou. Despediu-se de seu novo amigo, pronta para o que desse ou viesse.

O capitão sempre de prontidão logo desconfiou do tonel barulhento por conta dos roncos indiscretos do estômago vazio de Morena, mas, para surpresa geral dela mesma e de toda tripulação foi magnânimo. Deixou-a pernoitar em sua cabine em troca de pequenas gentilezas durante toda a viagem, no que ela não se fez de rogada.

Quase um ano depois, Morena Porralôca sentia-se uma nova mulher, apesar da pouca idade conquistara o carinho da turma toda do navio cargueiro que parava em qualquer porto onde os marinheiros precisavam se divertir. Morena aprendeu a viver.

Quando acabou a atracação do navio no porto do Recife ela vestiu a camisa listrada do embarcadiço que convencera o capitão a deixá-la dar uma volta pela cidade em sua alegre companhia. Emborcou de uma só vez o último copo de chá de capim santo misturado com a caninha parati, mastigou todas as torradas do pratinho de plástico presenteado por seu amigo gracioso antes de pular na escada de corda de dois em dois degraus. Cantarolava baixinho: Recife, cidade lendária de Capiba para dar sorte e sem que soubesse, havia chegado ao famoso Marco Zero, orgulho de todo recifense que se preze.

Na primeira bobeada driblou o embarcadiço muito indeciso entre uma boina pink ou o modelador de sobrancelhas e saiu por aí, pronta a conhecer cada detalhe da tão falada Veneza brasileira. Poucos passos adiantes quase derrubou a Rebordosa, que estava paralisada, hipnotizada diante da escultura de Brennand. Gritinho vai, gritinho vem, concluíram haver um remoto grau de parentesco a uni-las, tantas eram as coincidências de gostos e atitudes entre as duas.

Aceitaram o conselho de um tatuador da ponte da Boa Vista e foram atrás de catar caranguejos na maré baixa do rio Beberibe, quase na bacia do Pina sem parar de falar nem por um segundo. Foram às vias de fato com os verdadeiros catadores profissionais por causa de invasão de território e uns caçuás roubados, o insucesso não chegou a desanimá-las.

Comemoraram a meia dúzia arrebanhada de caranguejos para o café da manhã. Para a alegria ser completa faltavam importantes detalhes: um fogão, uma panela, uma cama onde dormir...

Cobertas de lama Morena e Rebordosa decidiram encarar um chuveirão em Boa Viagem, o próximo passo seria convencer ao chapinha Neguinho Fulorado a emprestar seu cafofo numa invasão da antiga Domingos Ferreira para descanso maneiroso das ladies. Diante do forte odor que delas emanava, resíduo de maré meio semelhante à fragrância francesa vencida, o ardiloso tocador de zabumba nos maracatus não sentiu muita firmeza na proposta. Saiu-se com essa: Só quando a maré encher. Quem sabe?

Nessa hora Morena Porralôca perdeu a calma e foi assaltada por seu primeiro pensamento malsão: ah, que saudade de Garibaldo... Nessas horas difíceis ninguém substitui um amigo leão.

E assim ocorreu o nascimento da nova poeta recifense.


Conceição Pazzola

28/07/2007

sexta-feira, 27 de julho de 2007

SUMIU



A minha vida nada mais é

Somente o castelo de areia

Efêmera, ao sabor da maré

Basta um sopro na candeia

Antes, só eu, o mar, o céu

Como será o meu castelo

Penso nele muito bonito

Forte, sólido, igual rocha

Longe de qualquer ameaça

Com areia faço argamassa

Moldo, desfaço sem pressa

Enfim o longo dia termina

No castelo tem um jardim

As ondas pedem seu lugar

E o mar avança sobre mim

Em breve desisto de lutar

Também o castelo tomba

A luta insana é crescente

Dele? Nenhuma sombra

Foi tragado de repente

Para onde foi o castelo

Nem lembrança restou

De novo só, perdi o elo

Ele sumiu, desmoronou.


Conceição Pazzola

27/7/2007