segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

A PROCISSÃO



Todos os anos, no dia da procissão de Nossa Senhora Aparecida o mesmo ritual se repetia. Logo depois de retirar o café da manhã da mesa e lavar a louça, começavam os preparativos da mulher de Serafim. Depois de preparar o sanduíche, envolvê-lo em papel pardo e guardá-lo na bolsa a tiracolo ela fechava portas e janelas, fazia as mesmas recomendações e partia.
Só então ele deixava escapar um longo suspiro de alívio, esfregava as mãos antes de retirar a gaiola da viga do terraço, fechava a porta de casa e rumava para os lados da mata enquanto o sabiá cantava alegremente dentro da gaiola. Tinha o dia livre para fazer o que lhe desse na telha, pouco ou nada o afetavam as manias de sua mulher habituada a freqüentar a casa do pároco, a sacristia e a igreja em todas as oportunidades. Depois que a velhice chegara, era a sua maneira de preencher a vida.
Chiquinho soltou um trinado de cumplicidade quando eles caminharam em direção ao manso regato. Serafim assobiou em resposta, lamentando não ter um bom anzol para entregar-se à pesca pelo resto daquele dia ensolarado.
Ah, se a mulher soubesse como aquela liberdade lhe era cara, bastava a companhia e o canto de Chiquinho para sentir-se feliz em longos passeios nos arredores da cidade onde viviam outros sabiás.
Acharia alimento em qualquer árvore frutífera dentro da mata; desde que o papo do sabiá estivesse cheio o resto se arranjava. E lá se foi com o pássaro cada vez mais canoro.
Enquanto isso Ambrosina chegou ao destino, entrou pressurosa pela sacristia para começar sua tarefa antes de chegarem os primeiros fiéis. Sabia quanto podia ser útil ao velho sacristão que se locomovia com ajuda de muletas. Os santos dos altares, imagens, castiçais e demais adereços sacros reluziam quando ela terminou o seu trabalho, sorriu de satisfação, arrumou as flores dos jarros, depois poliu os bancos que deviam brilhar em dia de festa.
Às duas e meia da tarde, a multidão comprimida no interior da igreja começou a acompanhar a saída da procissão; formou fileiras comportadas atrás dos andores enquanto Ambrosina engolia o último naco do sanduíche, bebia um gole d’água na sacristia e correu para ocupar o lugar junto ao andor principal. Acreditava que Nossa Senhora Aparecida olhava para ela.
Pena que nenhum de seus filhos aprendera a rezar, pelo contrário, riam de sua carolice. Depois de crescidos haviam debandado para São Paulo, restou a Serafim cuidar do passarinho, deixando-a livre para suas peregrinações diárias pelas comunidades pobres da periferia.
Pouco se lhe dava ficar ou sair de casa e o marido não se importava.
A procissão continuou ao som da música entoada pelos fiéis, cada vez mais numerosos a cada esquina.
A tarde terminara quando o cortejo retomou à igreja, naquele instante Ambrosina sentiu a primeira fisgada estranha dentro do peito. De fome não morreria, pensou, tivera o cuidado de se alimentar.
Elevou a voz com toda a força de seus pulmões até a dor repetir-se, obrigando-a a silenciar. Trêmula, teve de amparar-se ao braço da vizinha, que acolheu o gesto com um sorriso sem notar a sua extrema palidez.
Antes de a procissão chegar no alto da ladeira a nova pontada tirou-lhe o fôlego, arroxeou seus lábios. Cambaleou. Sem forças repentinamente escorregou sobre a calçada. Enquanto os circunstantes tentavam socorrê-la, no olhar fixo de Ambrosina a imagem de Nossa Senhora Aparecida sumia devagar até desaparecer por completo. Parara de respirar.

Conceição Pazzola. Olinda, 16 de setembro de 2004.



Um comentário:

Maria Muadié disse...

Êta Ceiça, jogou duro!
Muito bom e final surpreendente.

beijo