segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

AQUI MORA A SOLIDÃO


 
A casa é imensa.
Tem seis quartos, uma sala enorme e um corredor longo e sombrio.
Aqui é que mora a solidão.
Logo que cheguei, não notei quão grande era a casa.
Pouco me importavam as pessoas que passavam por mim, nem tentei decorar os nomes.
Já havia muita solidão dentro de mim, o vazio era intenso...
Penalizei-me de vovó. Ela sempre se perdia dentro da casa.
Ela ficava com as mãos na cabeça e olhava em torno, indagando: “onde estou?”
Eu dizia: Em casa, vovó... Você gosta da casa?
Ela respondia que não e me fitava com um olhar pesaroso e parecia adivinhar que eu nada poderia fazer em seu favor.
“Queria ir para casa, ver meus netinhos, meu gatinho encarnadinho”...
Todos sorriam quando ela mencionava um gato encarnadinho.
É tão difícil um gato desta cor.
Mas ela tinha um gato encarnadinho e isso me fazia rir e invejar-lhe a sorte de ter algo tão original. Tão lindo...
Com o correr dos dias, mal notava o corredor imenso, estava tão ocupada comigo mesma!
Ou ainda porque me acostumei a mesquinhar minha amizade.
Tudo é questão de hábito...
A casa, à medida que passam os dias, parece maior e mais vazia.
Estou isolada como se fosse uma ilha.
Nada me comove...
Só vovó quando diz de sua casinha, seus netinhos e seu gatinho encarnadinho.
Só vovó me comove na casa onde mora a solidão.

VINA CARDIM (8/8/1940 - 16/10/2000)


Um comentário:

Maria Muadié disse...

Bonito, Ceiça. Sua irmã, não é?
Um beijo,
Martha