domingo, 6 de maio de 2007

O BOM LADRÃO


Depois de chover praticamente o dia todo, ao aproximar-se a hora de deixar o trabalho o tempo clareou um pouco. Quase abandonei a sombrinha dentro do armário da minha sala de aula. Pensei melhor, não, pode recomeçar, sei lá. A brisa lá fora me encheu de esperança, enchi os pulmões de ar e caminhei alegre até chegar na esquina, que me levaria ao terminal de ônibus. As poças d’água, o calçamento molhado, tudo concorria para acender a imaginação. Uma tarde assim merece um programa a dois no escurinho de um cinema, ou visitar alguém que não vemos há muito tempo. Quem sabe, um encontro proibido num lugarzinho discreto, aí, seria imprescindível a chuva caindo pela janela para dar-nos impressão de maior aconchego.

Sorri desses pensamentos extravagantes, apressei os passos antes que a noite chegasse por completo. Precisava estar em casa onde os filhos, talvez até o marido estivesse à minha espera.

Dei pouca importância ao adolescente quando passou, esbarrou em mim, apesar de haver espaço suficiente na calçada. Éramos só nós dois a caminhar naquela direção. Lá adiante, o muro do cemitério e mais ninguém.

Quase no fim da rua ele parou de repente e voltou-se. Imaginei tratar-se de algum aluno querendo trocar mais dois dedos de prosa. Esbocei um sorriso amigável, ah, esses adoráveis adolescentes. Todos cabem na mesma fôrma. Gosto de ouvi-los, imaginações férteis a voar muito mais alto do que suas idades.

Vi alguma coisa brilhar e sumir rápido sob o seu casaco de jeans surrado. Escondeu-a desajeitado, sem me encarar gaguejou: Ande, me dê logo o que tem nessa sua bolsa.

Assim, sem mais nem menos. O coração pulsou forte, falhou uma batida. Devo ter empalidecido, tentei segurar o tremor dos lábios, em vão.

Olhei desesperada em direção ao muro do cemitério lá adiante, a sensação de desamparo dominou-me. Como um raio, passou a lembrança de meus filhos a esperar-me em casa.

Nenhuma raiva, só compaixão inundou-me o pensamento. Podia ser um deles. Meu Deus, ainda mal começou a viver, que futuro lhe restava?

Ouvi minha própria voz como se viesse de outra pessoa: Sou tão pobre quanto você – afirmei - Sou professora e não ando com dinheiro, meu filho. Tenho os passes de ônibus, você quer?

Percebi que suas mãos estavam trêmulas, mostrou-se hesitante, nervoso, sem coragem de olhar para mim.

Continuamos a andar cada vez mais depressa, e eu não parava de falar: Você me pegou de surpresa, quem sabe, se estiver aqui amanhã, trago algum trocado e lhe dou? Já viu, esse é o meu caminho, não viu?

Perdera por completo o controle, estava mais para um disco quebrado de antiga radiola de ficha. Nunca poderia imaginar que viveria situação tão ridícula, ao mesmo tempo sem saída.

Chegamos na outra esquina da Rua do Pombal, lado a lado como se fôssemos companheiros de longa data. Ou mãe e filho a passear na tarde cinzenta. A qualquer instante poderia ser o meu fim, antes de a chuva recomeçar estaria fulminada numa daquelas poças d’água.

Nem lembrei mais por que me encontrava ali, longe de casa, desamparada, vivenciando aquele pesadelo. O mundo inteiro se tornara nublado.

Súbito, como de um país distante chegou-me ao ouvido a voz do assaltante. Primeiro ele tateou nervosamente o objeto faiscante, ocultou-o melhor sob o casaco surrado de jeans e disse: Tem gente mais pobre do que eu. Vá, vá logo, vá embora!

Acelerei o passo, agarrei a minha sombrinha como se fosse uma tábua de salvação sem olhar para trás ganhei distância. Só então senti as pernas tremerem sem parar. O coração ainda acelerado, pensei: Meu Deus, como é triste ver um menino virar ladrão...

Somente quando já estava bem acomodada dentro do ônibus soltei um longo suspiro aliviado. Quem haveria de acreditar?

Conceição Pazzola

Olinda, 6 de maio de 2007.

2 comentários:

Maria Muadié disse...

posso mandar? mandar estes dois textos para o blog Histórias de professores? mande pra este endereço: assessoriapedagogica@gmail.com
beijos,

Aline disse...

Ceça, que história! Prendi a respiração e suspirei somente contigo, dentro do ônibus!

És como o vinho, minha amiga! Quanto mais o tempo passa, melhor ficas!!!

Beijos!