terça-feira, 7 de agosto de 2007

A DANÇA DA BORBOLETA



A escola e o bairro não passavam daquilo. Paupérrimos, quase miseráveis. Para realizar aquele projeto e montar o teatro infantil desdobrou-se sozinha, queria dar conta do recado. Sua marca de mulher obstinada, quando encasquetava uma coisa na cabeça, sai de baixo. Perdeu noites e muitas tardes, trabalhou durante o ano inteiro na tentativa de disciplinar, ensaiar, confeccionar cenário e roupas. O mais difícil já conseguira, as meninas trouxeram o consentimento assinado pelos pais. Na reunião de pais e mestres encenaria o Auto de Natal.

Chegou o grande dia. Escapuliu da vigilância cerrada de colegas e diretora, mal se encontrou sozinha abriu a cortina. Tremeu da cabeça aos pés: a cidade inteira parecia ter vindo à escola, não havia nenhum lugar vazio.

Impaciente, a platéia começou a bater os pés, a reclamar pela demora. Com muito esforço conseguiu controlar-se e foi buscar as “artistas” na sala contígua. Estavam em pé de guerra de tão excitadas. Parecia um pandemônio, deu um trabalhão acalmá-las. Aquela criança tímida e arredia que ameaçava fugir na hora agá precisava de todo o seu desvelo... Teve uma idéia. Tirou o batom da bolsa, puxou-a para longe das outras, mostrou-lhe o espelho antes de pintar seus lábios. A menina sorriu de tanta felicidade. Ainda não havia pregado o laçarote de papel crepom vermelho na cabeça, fez tudo em ritmo acelerado, em seguida a empurrou para onde as demais já estavam perfiladas atrás da cortina. Não havia tempo para mais nada. Deu o sinal, a cortina subiu quando a música começou a tocar. Sem perder nenhum movimento, não conseguia parar de cantar, a voz trêmula pelo nervosismo: Borboleta pequenina, venha cá nesse portal, venha ver quanta menina, hoje é noite de Natal...

Pronto, conseguira.

Os murmúrios de aprovação cada vez maiores confirmavam as batidas aceleradas dentro do peito: um sucesso!

Súbito, o sangue gelou em suas veias. Impossível não ouvir os cochichos, os risos vindos da platéia.

Cresceram de intensidade. Um frio percorreu-lhe a espinha, gesticulou frenética atrás da cortina sem que fosse obedecida.

Aquilo não podia estar acontecendo.

Desolação? Sem ligar para as gargalhadas insuportáveis, invadiu o palco, puxou-a do meio das outras, um grande ponto de interrogação parecia pular de suas pupilas assustadas: Por que?

Longe de olhares e risos obrigou-a a virar-se, a boca cheia de alfinetes começou a pregar com dedos nervosos a saia de papel crepom vermelho. Sem que percebesse, um volteio brusco e pronto. Abrira-se, pusera à mostra a calcinha de cetim e o pompom branco para deleite dos que assistiam.

Caiu no choro e nada a fez voltar para terminar a dança da borboleta.


Conceição Pazzola

Agosto/2007.

Um comentário:

Maria Muadié disse...

Bacana, Ceiça.
Me lembrei de uma crônica de Luiz F. Veríssimo, que fala sobre uma professora enlouquecia com uma peça.
Um beijo,
Martha